Crítica: Orgonizador Paduhélio – Prudente

Espetáculo: Orgonizador Paduhélio – Para todos os sentidos, com a Cia. De Theatro Fase 3, de Londrina (PR).
(25/08/2007)

“Mais que raízes, a graça de um estado”
Kil Abreu (Jornalista, Pesquisador e Crítico Teatral da Ilustrada da Folha de São Paulo)

O Fase 3, esta companhia de simpáticas senhoras paranaenses, em princípio parece um destes projetos de vocação estritamente social, sobre os quais em geral se festeja a iniciativa inclusiva e todas as variantes politicamente corretas conhecidas, sem muito espaço para valorizar neles a iniciativa estética. Entretanto, é com prazer que aqui se pode verificar também a pertinência artística inequívoca do trabalho, sua idéia sofisticada e sua encantadora solução poética.

Temos notícia, através do programa, que o grupo já tem mais de vinte anos e foi criado no Sesc de Londrina, ganhando autonomia um tempo depois, através da instalação de um Núcleo de pesquisa sugestivamente batizado “Núcleo de pesquisa em teatro para todas as idades”, que elenca um considerável e muito diverso conjunto de criações, da Antígona de Sófocles a intervenções urbanas “avant-garde”, como “X-Vezes – Gente Cadeira”, apresentada em festivais internacionais.

Pois isto talvez justifique a sensação que se tem ao assistir à seqüência de quadros poéticos que dão corpo a este Orgonizador Paduhélio. São basicamente depoimentos líricos vividos pelas intérpretes no interior de uma caixa preta, para uma platéia fracionada a quatro ou cinco pessoas por vez e tomando como argumento os poemas de Adélia Prado. Parafraseando a própria poetisa mineira, mais que fincar raízes e constituir uma fábula, o espetáculo pretende provocar a graça de um estado, dialogando delicadamente com a matéria que lhe dá substância.


É inevitável, ainda que se corra o risco de atestar uma impressão falsa, que sejamos levados a entender uma parte do efeito do espetáculo na conta da correspondência firme entre as mulheres e os textos que representam. Diferentes vozes da mesma Adélia, e delas mesmas, e provavelmente de nós também, personificam no fundo do espelho para o qual devemos olhar aquele misto de filosofia do cotidiano e memória, sempre sob o olhar vigilante do Divino, em uma espécie de catolicismo de vila, sem grandes oratórias nem moralidades.

No feliz achado cenográfico de Ella Melo e João Henrique Bernardi está a solução que sintetiza este trabalho da Fase 3 e ambienta em poucos minutos o sentido das minúsculas epifanias: uma imagem que vem e se instala com suas palavras, como um susto bom que temos ao abrir a janela, para logo desaparecer de novo em algum lugar da paisagem. Um encontro breve e potente entre a transitoriedade do teatro e a fugacidade da vida.

Fonte: Assessoria de Imprensa/Fentepp
(disponível aqui)

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