A memória como matéria de realidade e ficção

A Cia de Theatro Fase 3 reconstrói uma história de saudade que se materializa e se dissolve como a espuma do mar


Dor grande é esperar a volta de quem não vem. Dor grande é esperar quem não vem nunca mais, mesmo quando se põem os olhos no mar, que tudo leva e tudo traz.

Às vezes o que volta é apenas a espuma do tempo, lembrança presa nas conchas do nunca mais, na areia que escoou da ampulheta que não vira para recontar as horas, os dias, a história de um amor que se foi como os navios que cruzam o horizonte e desaparecem,  de um jeito que a gente pensa que era um navio-fantasma.

A história que parece emergir do que já não existe é a história de Josephina, mulher velha que um dia foi menina e perdeu seu amor para o mar. Só esta saudade dá um enredo comprido que só Deus sabe. Porque Josephina, coitada, nunca mais soube do seu amor, o amor que perdeu para o mar. Perder para o mar é uma perda grande, porque as ondas engolem pessoas, mas não engolem as memórias de quem ficou. Assim, Josefina é uma conta do rosário das viúvas, mais uma conta que se passa entre os dedos e as rezas das mulheres que não perdem a esperança, mesmo quando perdem seu amor.

Josephina era o nome da mulher de um jangadeiro lendário: Manoel Olímpio Meira, o Jacaré. Em 1941, com mais três companheiros – Mestre Jerônimo (Jerônimo André de Souza), Tatá (Raimundo Correia Lima) e Manuel Preto (Manoel Pereira da Silva) -, ele empreendeu uma viagem longa de 61 dias por mar, numa jangada de seis paus, entre Fortaleza e o Rio, então capital da República, para levar reivindicações trabalhistas a Getúlio Vargas. Sua saga foi comentada em todo país, virou notícia de jornais e, assim, um jangadeiro anônimo se transformou num herói.

Em 1942, o cineasta Orson Welles chegou ao Brasil como uma espécie de embaixador cultural dos EUA. Veio com a missão de realizar um documentário sobre manifestações populares e costumes, um documentário que serviria para impulsionar as relações entre os dois países, selando a política de boa vizinhança. O documentário, que se chamaria É Tudo Verdade (It’s All True) transformou-se num retrato realista do carnaval carioca, incluindo registros nas favelas, e da trajetória de Jacaré e seus companheiros de odisseia,  todos Ulisses sem bússola ou cartas marítimas.

Para isso, Welles realizou filmagens em Mucuripe, aldeia de pescadores nos arredores de Fortaleza, fazendo um registro crítico, histórico e antropológico daquela gente pobre e sofrida que passava a milhas náuticas da imagem de um povo contente. No meio das filmagens ocorreu uma tragédia: a jangada de Jacaré virou, o pescador se afogou, ainda foi visto dando braçadas mar adentro, mas desapareceu e seu corpo jamais foi encontrado.

Sua viúva Josephina, repetindo um ritual de saudade, passou a esperar pelo marido com os olhos grudados no horizonte. Vieram os dias e a noites, as ondas e as marés, mas seu homem não voltou, dando lugar à dor da ausência sem sentido, da morte sem corpo.

Partindo desta história, o dramaturgo e diretor João Henrique Bernardi criou “Yemanjá de São Saruê”, montagem que se vale , mais uma vez, da matéria-prima que impulsiona o trabalho da Cia de Theatro Fase 3: a memória. Memória histórica e memórias das atrizes, tecidas como renda-de-bilro  a partir da “matriz” de um episódio nordestino  que se repete em todos os lugares do mundo: a história da viuvez, da dor de ver arrancada a “outra parte”, perdendo-se o contato de anos, do amor que se constrói ponto a ponto, como um crochê existencialista e paciente a que se dedicam as mulheres apaixonadas.

Mais uma vez as atrizes da Cia de Theatro Fase 3 também tomam pela mão suas próprias histórias para entrelaçá-las  com temas universais, dando-lhes um “corpo teatral”, que na ausência do corpo dos que se foram, se materializa em gestos, cenas, canções, muitas canções, porque a musicalidade é uma das marcas do grupo.

A história de Josephina, que antes da morte faz um inventário de suas lembranças, vem salpicada de estrelas e saudades, vem na companhia de Yemanjá, a rainha do mar que também consola as viúvas e todas as mulheres que se identificam com a dor da perda.

No caso deste espetáculo, a dor vem com o lirismo do grupo, a poesia dos grandes sentimentos, a intensidade da sombra e da luz como no filme de Orson Welles, que conseguiu deixar a realidade a um passo da ficção, entrelaçando fatos e criação. Em 30 minutos de espetáculo, a Cia de Theatro Fase 3 reconstrói histórias da eternidade para mostrar quem partiu e quem ficou, numa mistura de presença e ausência que se confundem. Este estado de coisas se mantém vivo graças a uma senhora chamada Memória, deusa de espuma que se dissolve e se materializa como as ondas do mar que engolem amores e nos devolvem conchas, onde as mulheres reencontram as pérolas de suas emoções.

(Célia Musilli)

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Uma resposta para “A memória como matéria de realidade e ficção

  1. Jéssica Hiroko ⋅

    Que foto mais linda!!!
    Parabéns ao grupo pelo novo espetáculo.
    Beijo grande e saudoso

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