No Pais da Gente Nua

Ai, esse amor de homem morto. Ai, esse amor de mulher víuva. Em todas caem como uma luva.


DALVINHA

1.

Dalvinha entre a pia e o fogão cantarolava: “Quando você se separou de mim, quase, que a minha vida teve fim …” de  repente, lá de dentro da casa uma berro: “- cala essa boca”

2.

Foi para o ponto de ônibus já devia ser mais ou menos 20 horas. Mal vestida, com um sacolão de magazine popular, carregando abraçada as alças arrebentadas.Daí, que passou aquele carro e um moço, janela a fora berrava:  Pra casa coisa feia, cruz credo! Dalvinha olhou para um lado e para outro, quem estava ou passava. Viu que era para ela a troça. Ela enrugou a cara, torceu os pés e feito criança chorou. Ninguém acudiu, nada. Doeu tanto em Dalvinha aquela bobagem infantilóide, que ela mudou, mudou, nunca mais foi a mesma. Todos perceberam, mas não entenderam, achavam que seria uma depressão – depois não acharam mais nada. Em Dalva tudo perdeu-se. Ela era só uma mulherzinha, essa Dalva, tão frágil, tão fácil de matar.

3.

Dalvinha cruzou a rua e foi parar na Bologna, pediu “uma guaraná e copo”. Percebeu um olhar que atravessava a esquina, sorriu e esperou. E só. Na saída, o desaforado lhe dá um papel. Que pena, pegou o papel e não entendeu nada. Dalva, era sem nenhum estudo, só desenhava o nome, mesmo.

4.

Dalvinha conta: “No dia que eu descobri que era feinha, deixei meus cabelos crescerem e comprei um salto alto, batom e esmalte vermelho e me deixei ser assim feitinha pintada e de cabelo longo.”

5.

Quando Dalvinha perdeu sua casa, quase morreu. Mas ninguém morre assim de “tanta tristeza”. A gente só morre de dor, quando ela for a maior. Depois disso pegou barriga de um rapaz que sumiu assim que soube. No terceiro mês ela perdeu a criança. Não morreu também não, mas ficou louca.

6.

Dalvinha disse-me hoje, que nunca foi viva, já nasceu morta. Mas ninguém quis saber não, já lhe deram o peneirão e disseram “vai baná café Dalvinha e abre esse olho, parece que nasceu no dia da preguiça.”

7.

Dalvinha não era de todo boba, nem de tanta pena assim. Gostava de fumar “Bravo” num banquinho de madeira, no fundo da casa, perto da horta. Ouvia a Rádio Globo, a missa, as notícias, as músicas e o horóscopo. Era sozinha no quartinho dos fundos e doméstica da casa toda. Não tinha nada que fosse seu de verdade, nem a alma de Dalvinha era dela. Sabe a pessoa que entregou tudo nesta vida. Esta é Dalvinha.

8.

Enquanto Dalva bate e quara a roupa branca, pensa na vida: “o que separa a mentida da verdade?”, também pensa que tem fome e já são quatro da tarde, mas a labuta só termina as sete da noite. Dona Maria, a patroa que é sovina não dá café da tarde e almoço pingou no estomago e eram 11 da manhã, a sovina patroa Maria, não passa mal não tem bolo de fubá e limonada rosa, tem bacia de manga espada, tudo morto na geladeira. Bate e quara a roupa de dona Maria e salga tudo chorando no tanque, mas não entende a vida não, não poderá entender nunca esse negócio. Depois, a fome atrapalha o entendimento.

A estranha cultura do adeus

Na caixinha de música da minha irmã, há anos, um fio de cabelo enroscado na corda, era a mais perfeita lembrança de tudo que fomos.

Naquele sonho, enquanto ela limpava a engrenagem com um sopro …

olvidou-se tudo,

olvidou-me ela,

olvidei-me eu.

Mas o fiozinho não. E foi embora o liberto fio na réstia de sol, no vinco da cortina. Junto dele, muitas células mortas de todos da casa.

“O homem cumpre sua função, e será carbono reagindo com outra coisa, para ser outra coisa imortal”

PANPHLETO

façamos a revolução,
antes que o povo a faça,
antes que o povo à praça,
antes que o povo a massa,
antes que o povo na raça,
antes que o povo: A FARSA” *

Despertai-vos, é urgente, velhos!

Em pé homens renascidos, aleluia.

O mundo vos pertence. Sois maioria, percebam.

Então, comei a vida com a urgência de vossos óculos “antropofágicos”.  E, bem alimentados matem Anhangüera, diabo velho, antes do dia do apocalipse.

Viva vossos rostos transformados em “máscaras de rugas”, forjadas na fria espera, na resistência dos sonhos, na vida, que quase não foi.

Avante guerrilheiros, tomais as praças, as ruas, as igrejas, os castelos, palácios e casas de poder e desgraça.

Marchai, velhos e velhas iluminados.

Transcendam o mar da mágoa, solidão, saudade e descaso. Eis aí as armas. Força de Olorum, velhos amigos!

Salvai os tortos séculos que virão depois deste, com outras invenções importantes e tolas.

O mundo agoniza em penúria profunda.

Retornados, socorra vossos filhos e netos, caídos por tantos caminhos.

OXALÁ, em breve, o mundo tenha comida para todos.

Vive em vós a cultura tupiniquim. Anauê!

Contai, cantai griôs benditos de são saruê, velhos loucos de Tupã.

Fazei a Revolução, pois mais nada há de ser hipócrita nessa Terra.

Quebrai e ajeitai também, os perigosos da mídia que vos transformam em produtos de nomes estranhos e pobres, desmerecendo a envelhescência divina. Transformando a alma em número.

E assim libertai o que vive em vós.

Com a alma aguda, mostrai o caminho NATURAL.

E assim sendo, que Nossa Sr. Aparecida, apareça,

E que vossos antepassados nos protejam

EVOÉ!

*Trecho do poema Anti-Sonetos Ouropretanos de Affonso Ávila


Uma resposta para “No Pais da Gente Nua

  1. zéluiz ⋅

    Anos revolucionários. Avós revolucionários. Há vozes revolucionárias. A voz revoluciona. Ria.
    Zé-do-Rio riu do Zé e do Rio.

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